«Há dez anos já íamos todos morrer. Há dez anos já
tínhamos pântano político e tanga no Estado. Há dez anos as reformas já
eram todas para já e acabavam sendo nunca. Há dez anos as mesmas pessoas
de hoje enchiam a boca de feitos e esvaziavam a mão de defeitos. Há dez
anos já havia todas as mentiras, todos os mentirosos e todos a quem
mentiam. Há dez anos já havia interesses, lóbis, corrupção,
desigualdades, pobreza, proteccionismo, impunidade, compadrio,
desesperança, défice, dívida, partidos políticos e políticos partidos.
Há dez anos Portugal já era o que
ainda era. E já havia génio. Inquietação. Vontade contra a moinha.
Insatisfação com a insatisfação. E já havia zanga, fúria, urros, hurras.
A sensação frequente de que estamos sempre a escrever o mesmo editorial
porque nada muda. A alegria rara de que a esperança pode mesmo ser
inventada. A constatação final de que dez anos não é nada e foi tanto.
Em
cinco Governos, apenas um cumpriu a legislatura. Houve maioria
absolutas, relativas, coligações, dissoluções, escolhas sem eleições. As
retomas nunca chegaram, o défice foi sempre manipulado, a dívida foi
sempre escondida, a competitividade foi fraca, a economia foi fraca, a
carne foi fraca. Os negócios foram fortes. Privatizações da PT, EDP,
Galp, REN, Portucel, ANA. O maior negócio de sempre, a impensável oferta
da Sonae para comprar a PT, num ano em que o país pensava que era rico,
quando também o BCP quis comprar o BPI, duas OPA hostis falhadas com
consequências tão diferentes. A "golden share". A ruína do BCP,
assistida por uma CGD infamemente politizada, no caso empresarial mais
sujo de que há memória, em que até fotografias íntimas comprometedoras
de pessoas envolvidas nos foram propostas (e por nós recusadas). Os
assassinatos de carácter com fugas de informação selectivas em violação
do segredo de justiça. A vergonha manipuladora das escutas. Espionagem.
Os casos de promiscuidade entre empresas e política: o Furacão, o
Mensalão, o Face Oculta, o Polvo, o Monte Branco. O escândalo do BPN. Do
BPP. As PPP, os swaps, os estádios, as estradas, o aeroporto, o TGV.
Mas também a salvação de impérios, como a Jerónimo Martins. O sucesso da
Renova, da Bial, da Frulact, do banco Big, da Portucel, da Mota-Engil,
da Sovena, da Autoeuropa, de milhares de filiais, de fornecedores de
multinacionais, de grandes pequenas empresas desconhecidas. E a
intervenção externa. A austeridade. O protectorado. A crise financeira. A
crise económica. A crise social. O desemprego. A geração sem respostas,
sem propostas, sem apostas, a geração sem nada.
A
Europa afunda-se em resgates, o euro claudica. Durão mudou de nome para
Barroso. Aparece Obama. Esmaece Mandela. O mundo sacode-se, com a
revolta de uma larga região do hemisfério sul pobre mas emergente contra
outra larga região do hemisfério norte rico mas decadente. O mundo
ocidental atolado em dívidas. O mundo oriental a tornar-se potência. Uma
demografia explosiva e desequilibrada. Centenas de milhões de seres
humanos a sair da pobreza. A exigirem mais do seu sistema político. A
circularem livremente em redes sociais. Primavera Árabe. África em
crescimento astral. Nestes dez primeiros anos do
Negócios como jornal diário os dias foram mais que notícia. Foram um
pentagrama de uma era em mudança, com as democracias, o capitalismo, o
liberalismo, o sistema financeiro, os equilíbrios mundiais, a Europa em
solavanco. É a frustração de ver um país a afundar-se na carência do
futuro. É a paixão de noticiar um tempo histórico. Há dez anos Portugal
já era Portugal. Há dez anos já íamos todos viver. Já queríamos partir
tudo, já queríamos construir tudo, já queríamos desistir, insistir,
resistir, amar, desesperar, esperar, não esperar. Perdemos muito. Mas
também ganhámos muito na década perdida. Às vezes parece que a história
nos desfaz. Mas somos nós quem faz a história. Jornalistas, leitores,
incluídos, excluídos, temerários, amotinados, nós somos os escritores da
História. "Que há-de ser de nós?", perguntava Sérgio Godinho. A
resposta é nossa. Porque mesmo quando a notícia é sobre outras gentes,
políticos, empresários, polícias, ladrões, sucessos, fracassos,
geografias e povos distantes, a notícia somos sempre nós.»
Pedro Santos Guerreiro
Jornal de Negócios
26 Junho 2013,
23:30